10.10.10

 
 não limitando a sua actuação apenas no toque das mãos ao corpo. também pensou em pontos específicos como quadris ou ombros. determinadas posições que se permanecesse em determinado momento poderiam invocar em quem dorme em pé ou encostado preocupações há muito esquecidas: hoje ainda é quarta.

17.8.10







eu acho que a ideia de que qualquer tecla possa estar em rivalidade com outra é mera ilusão. diria que a relação diária entre elas é absolutamente diatónica. já o fole inspira um ar que não se pode suspeitar. é oportunista. só responde quando me ponho a dançar devagarinho da cintura para cima. olhos fixos em frente, todos os tendões dos dedos em jogos de elástico, a perna direita em bicos de pé, o pé esquerdo num um, dois, três, um, dois, três. em dois compassos tens a minha terra.

15.8.10








basco por cá. basque para o francês. vasco para o espanhol que canta do olho do furacão. euskal herria para eles. eles é como nós dizemos. o francês diz que são os larápios das praias fresquinhas da biscaia e o espanhol diz que são os de lá em cima num sotaque férreo de ranger de dentes. lá em cima não lhes fica mal. a eles. alguns d'eles optaram por comprar casa numa terra chamada gasteiz que cá quer dizer tomem lá. mais coisa menos coisa.

31.7.10







pelo caminho das pedras câmara-de-ar e água prudentemente até à sombra das pálpebras. num piscar de olhos estão penduradas palavras brancas como caudas presas nas barbatanas e a mão para refrescar o peito sem ser preciso o álcool para falar com os outros. inicio do texto. aqui.

8.7.10

















it's an autobiography written as it's happening. the theme is about staying alive. getting a job, finding a mate, having a place to live, finding a creative outlet. life is a war of attrition. you have to stay active on all fronts. it's one thing after another. i've tried to control a chaotic universe. and it's a losing battle. but i can't let go. i've tried, but i can't. fim do esplendor.

6.7.10







será que é assim que me vêem? ao reverso do avesso. lamento, é assim que me vejo. o meu surrealismo secreto. desenho com a mão direita e o retrato sai canhoto. pisco o olho esquerdo mas é o direito que reage. caretas, dentes escovados, ganchos no cabelo, maquilhagem. de tudo ao contrário. ensaio movimentos de ninja e passos de vaudeville de trás para a frente e de cabeça para baixo. será que é de começar pelo fim? confiem-me, a mentira é sempre humilde. a verdade é que é uma vaidosa.

4.7.10









porque a história da alquimia não passa de uma luxuriante sova de aventuras de micróbios, assumo que não conto histórias nem nada. nada transformo. quero é o electrochoque dos genes da carne, o verdadeiro estado inerte que se opera sobre a realidade. navegar à vista sem cuidar das gerações passadas. eu não sou nem nunca fui o porta-voz da culpa. deixem-nos acabar o terrivelmente assombroso feminino deste jantar a dois sobre as ossadas da andreia. obrigado.

26.6.10







não gosto daquelas de casca grossa, com rodinhas, pegas à caniche e códigos vaidosos que por defeito marcam sempre seis seis seis. assim que saem da loja já cheiram a querosene, náusea, porão, pulsões de arrependimento, etiquetas verde-polícia, cefaleia, raio x, reuniões de negócios, pirataria, enriquecimento curricular, café em copo de papel, filas de espera, turbulência, sonos trocados, claustrofobia, pressão, compressão, descompressão, surdez, mais um momento, adiamento, cancelamento. gosto muito mais desta.

25.6.10















estás a desenhar-me? eu sei que estás. ele não sabe porque está de costas e aquele outro sabe mas gosta e põe-se a jeito porque acha que fica bem de perfil. eu sei que isso sou eu porque estou de frente para ti a ver como procuras a mistura certa para a cor do meu cabelo e o traço certo para a curva do meu nariz. nem sequer é assim. é mais pequeno. e não me ponhas com essa expressão que não estou zangada contigo. não me importo que o faças. só quero que o reconheças ou que o rasgues se não ficar bonito.

24.6.10







cabe-me desvendar-vos a identidade de um fruto injustamente subestimado. csipkebogyó. nome convenientemente húngaro para adensar a sua personalidade exótica. apresenta-se em cachos de baguinhas cor fucsia. de natureza silvestre, dá-se bem em matas desapropriadas nas periferias da infância. quanto ao sabor, descreve-lo-ia como semelhante a coisíssima nenhuma mas talvez a meia viagem entre a tarde em granada de debussy e o barco bêbado do rimbaud.